Catorze Anos do Com Ciência – Somos Todos/as Responsáveis

Nesta Segunda Feira, dia 08 de Abril de 2013, às 19h00, uma Segunda Feira típica do OutonoCuritibano, após um dia de um sol preguiçoso e um céu nebluento, no Salão Comunitário da Paróquia São Pedro, ao lado da sala do Com Ciência, aconteceu um momento extraordinário! Aconteceu à aula inaugural, a abertura do ano letivo de 2013 do Cursinho pré-vestibular,Com Ciência.Estamos vivendo um momento de importância singular! Em plena adolescência, mas cheio de juventude e com postura e atitudes de adulto. Aos catorze anos atingimos a maturidade politica. Estamos avançando com vigor rumo à maturidade pedagógica. Aproximadamente sessenta jovens inscritos, compareceram à aula inaugural e atenderam com entusiasmo a proposta da equipe de educadores/as do Cursinho. Em grupos identificados por cores, escreveram, desenharam e pintaram nos cartazes seus sonhos, suas metas e seus objetivos. Educação é um ato coletivo! Comunitário! “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho” nos diz do alto de sua recificidade, o mestre Paulo Freire, na obra Pedagogia do Oprimido.

Os/as educadores/as também compareceram em peso, com exceção daqueles/as que por motivo de força maior, são, por exemplo, educadores também em outras instituições, por isso não compareceram. Mas tenho certeza que espiritualmente estiveram conosco. Este é o espírito da Família Com Ciência. Aprovamos no ano passado treze de seus educandos/asnas principais universidades de Curitiba, sendo dois na Universidade Federal do Paraná – UFPR. É uma vitória da educação como prática da liberdade. Significa que o ponto de partida é o ato de aprender e não o de ensinar. Decorre disto que todos/as aprendemos e todos/as ensinamos e a educação não é como uma mercadoria vendida a preço de ouro para quem a pode comprar.

Vista e vivida como um ato de amor, a educação tem a vocação e o poder transformar as pessoas. Estas por sua vez, transformarão a realidade e o mundo. O Brasil vive um momento propício para sonhar os sonhos possíveis. Com mais de um milhão de jovens nas Universidades, a maioria com o perfil socioeducativo e econômico dos jovens que procuram o Com Ciência, o sistema Pro-Uni é extraordinário, mas insuficiente. Se imaginarmos que temos dez anos dos governos do presidente Lula e da presidenta Dilma, e que neste período um milhão de brasileiros/as entraram na Universidade, através das políticas de acesso à Universidade, temos uma conta fácil de fazer. Mas de difícil pagamento. Considerando que temos em nosso país aproximadamente cinquenta milhões de jovens, pessoas com idade entre quinze e vinte e nove anos, e considerando ainda que a cada dez anos um milhão deles sejam inseridos na Universidade, precisaríamos, em tese, de cem anos para atingirmos índices razoáveis de inserção. Teríamos daqui a um século, hipoteticamente, cerca dez milhões, 20% destes jovens que teriam acessado o direito à educação superior. É certo que nosso país tem neste momento histórico um lampejo de lucidez com relação à educação. Nossa cidade, Curitiba, por exemplo, tem como Secretária de Educação uma Professora de carreira, a Doutora Roberlayne Borges Roballo.Este é mais um sinal de esperança denosso tempo. Antes do Pro-Uni e das cotas, no entanto, quem batia faminta e gananciosa à nossa porta era política de privatização do sistema de ensino. E a herança que ficou foi o sucateamento das estruturas e principalmente a precarização do trabalho das/os profissionais da educação. Não podemos ignorar este referencial.

Relatório sobre educação divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em setembro do ano passado mostra que o país está na 38ª colocação entre 40 nações quando o assunto é educação superior. Somente 11% da população entre 25 e 64 anos de idade atingiram esse patamar educacional, quando o recomendável é, ao menos, 31% (Artigo dePaulo Silva Pinto, Priscila Oliveira. “Brasileiros que chegaram à universidade são 11% da população”.  Correio Brasiliense, 27/01/13 e UNB 28/01/13.).

É este contexto que mostra a importância do CursinhoCom Ciência, assim como outras iniciativas da sociedade. Aos/às jovens que entram no Com Ciência, vocês são construtores da obra mais importante das vidas de vocês. A própria história, o próprio processo de construção e produção do conhecimento e a história de nosso país. Dela, portanto, dependerão todas as outras construções que virão. A primeira descoberta que a gente faz, no entanto, é que não vai fazer isto sozinho. A gente só cresce, o ser humano só se desenvolve, convivendo, se relacionando com outros seres humanos. É ouvindo o outro, o semelhante, que a gente aprende a falar, é amando-o que a gente aprende a ouvi-lo. Disto tudo decorre o diálogo necessário. “Somente dialoga quem ama” nos diz Paulo Freire. É por isto que nos orientamos por relações humanas e humanizadoras. Os objetivos, as metas e os desejos revelados por vocês nesta noite, são responsabilidade de todos/as nós. São de toda a Família Com Ciência. Todos/as nós somos responsáveis pelo Cursinho. Responsabilidade aqui é muito mais que dever, este é comum aos regimes autoritários, onde as liberdades são negadas e os desejos são reprimidos. Aquela, por sua vez, é de homens e mulheres livres, por isso responsáveis, não só por si mesmos/as, mas pela sociedade. “Que o cotidiano não destrua os propósitos de vocês”, como diz o professor Clodovis Boff. Ao contrário, que ele os fortaleça e os faça vitoriosos. Que sejamos parceiros no processo de construção do conhecimento e não nos permitamos nos ver apenas como concorrentes.

Apesar de ser um dos nossos objetivos específicos, aprovar educandos nos vestibulares, mas não é o único e nem o mais importante, na nossa visão de educação. Visamos à formação de cidadãos/ãs conscientes e comprometidos com a transformação da sociedade. Acreditamos ser de uma “gente boa” que surge o profissional bom, ético amoroso e não o contrário. Por isso a educação crítica e capaz de autocrítica. Por isso a relação construída é entre Seres Aprendentes, pois todos/as possuem saberes e saber nenhum é maior que outro saber. Além do diálogo fraterno e amoroso na relação educando-educador e educador educando, também os interesses que os movem dialogam e se somam num verdadeiro mutirão onde as verdades se rendem às dúvidas, as certezas absolutas se deixam levar pela curiosidade epistemológica e pela criticidade e nos descobrimos inacabados. É esta a grande descoberta que nos faz seres esperançosos, buscantes e em construção permanente.Afinal, nos diz Paulo Freire, “O mundo não é, o mundo está sendo”.  Sejamos mais teimosos que a própria teimosia.

Curitiba, 10 de Abril de 2013.

João Santiago. Teólogo, Poeta e Militante.

É Mestre em Teologia e Coordenador

Pedagógico do Cursinho pré-vestibular

Com Ciência.

poesiaemilitancia@yahoo.com.br