Juventude do Meio Popular e a “Casa Comum, Nossa Responsabilidade”

2016

O tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016 vem trazer mais uma vez à tona o cuidado com o meio ambiente, com um toque diferenciado e de suma importância que jamais podemos perder de vista, pois atualmente passamos por um momento delicado no Brasil por conta do surto do mosquito Aedes aegypti causador da dengue, chikungunya e zika.

A sociedade deve despertar para este cuidado com a casa comum, e nós, como jovens do meio popular, como podemos contribuir neste momento em que o nosso país atravessa? Lembro-me do ano de 2003 quando o tema da Semana da Cidadania foi “Políticas Públicas para a Juventude” e o Lema foi “Lancemos as redes em águas mais profundas”, e a gente discutia ainda em meu grupo de jovem de base sobre a água e até nos juntamos e fomos andar por algumas ruas do bairro onde moro para colher garrafas pets. Juntamos diversos sacos e enviamos para a reciclagem, pensava eu ainda no início de minha caminhada pastoral sobre o que de fato estávamos fazendo naquele momento, quem sabe o pouco que pensávamos em fazer seria um bem necessário se todos também o fizessem.

Neste ano estamos de novo discutindo as questões ambientais do planeta e eu, como leitor assíduo e também pesquisador desta área e militante da PJMP, não poderia me furtar a escrever sobre o assunto que nos rodeia todos os dias. Será um texto breve, mas é necessário e acredito em uma juventude informada, mas não é qualquer informação que desejo que elas possuam; precisamos de uma informação de qualidade, não se podem mascarar os fatos como as TVs, sites e blogs já fazem isso muito bem. Almejo fazer comunicação de verdade, aquela que te deixa com raiva, chateado e refletindo o porquê que parece estar tudo errado se eu faço tudo certo. Posso dizer uma coisa: as críticas já começaram e não são poucas, existe um grupo que não consegue entender a gravidade dos fatos e continua com o pensamento de que tais temas “sociais” não devem ser discutidos pela igreja e, enquanto esse pensamento é propagado, milhares de vidas continuam sendo ceifadas, a maioria nas periferias dos pequenos e grandes centros urbanos e rurais.

Infelizmente a maioria dos brasileiros só se preocupa com alguma coisa quando aquilo passa a lhe afetar diretamente, ou seja, a zona de conforto onde uma minoria se encontra ainda é empecilho para se mover para algo. O importante é percebermos que este pensamento está mudando, mesmo com a tentativa de nos calar com ditaduras modernas, tentativa de golpe e também perseguição política, de raça e gênero, entretanto isso não vai nos calar.

Nossa geração acredita que as mudanças devem acontecer agora, não temos mais tanto tempo assim para esperar que as mesmas aconteçam e esse sentimento de mudança é o que nos inspira na caminhada.

Papa Francisco ainda nos anima com o discurso “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos...”. Tal discurso nos leva a contemplar e reafirmar nosso projeto de uma sociedade que possa fazer o uso correto dos bens naturais e que é nossa responsabilidade este cuidado com a casa comum.

Sempre soubemos que as grandes empresas jamais estiveram preocupadas com o meio ambiente e sempre visaram lucro, e um grande exemplo que temos é o maior desastre ambiental da história do Brasil, começando na cidade de Mariana-MG e atravessando o Rio Doce até a foz em Linhares-ES, onde a lama da Samarco e da Vale destruiu diversos habitats e apresenta dados alarmantes, e até o momento não foi tomada nenhuma providência jurídica para punir a referida empresa que continua atuando com grandes empreendimentos pelo Brasil; mais uma vez nos perguntamos: quantas vidas valem o preço do desenvolvimento?

Acredito que nenhuma, vivemos o ápice de que a lei no Brasil só serve para punir o jovem em sua maioria negra, pobre e periférica, os grandes empresários não são atingidos por esta lei que, por vezes, possui atos de corrupção que envolve diversos setores da sociedade.

Quando falo do cuidado com a “casa comum, nossa responsabilidade”, me vem à mente o quanto estamos distantes deste cuidado; exemplos são milhares: um bebê indígena assassinado, mendigos queimados, jovens negros amarrados em postes, homossexuais tendo suas vidas ceifadas por motivo fútil e percebemos como estamos passando por dias difíceis na sociedade. O sangue “branco” parece mais valioso que o sangue “negro”, a indiferença que permanece é um histórico de racismo e preconceito presente na sociedade brasileira; enquanto temos uma sociedade minoritariamente que luta a favor dos mais necessitados, existe um poder do Estado que reprime as ações por vezes pacíficas, onde nossos estudantes que lutam para que suas escolas não sejam fechadas apanham do poder armado do Estado.

Esse quadro precisa mudar e precisamos enfrentar, como jovens homens e mulheres que acreditam em um Brasil onde todos possam ter direitos de terra, trabalho, moradia, etc. O importante é que nossa luta continua mesmo diante de tantos atropelos, demonstramos nossa força nesse holocausto que foi formado, passamos por cima da dita “crise” fazendo aquilo que nós jovens fazemos de melhor que é incomodar os poderosos, e não vamos sossegar enquanto não os derrubarmos de seus tronos. Essa pirâmide vai ter que girar e nós vamos alcançar essa terra que, quanto mais nos aproximamos, parece que mais se afasta de nós, mas desistir é pior e não somos esta juventude, iremos até o fim a exemplo do Jovem Jesus Cristo que revolucionou e continua nos impulsionando para a revolução.

Nossa juventude é ousada e a ternura e resistência farão com que continuemos nossa caminhada trazendo novas luzes em meio a tantas trevas existentes.

Vamos Cuidar da Casa Comum - Combater o Genocídio da Juventude Negra

Jone Braga de Moura
Pós Graduando em Gestão Perícia e Auditoria Ambiental pela Universidade Nilton Lins
Militante da Pastoral da Juventude do Meio Popular
joneufam@gmail.com – (92) 98419-1103