Zé Vicente

Militantes que Fizeram e Fazem a História da PJMP 

Vicente - Ceará

CANINDÉ, 20 ANOS DEPOIS: MEMÓRIA DE UM TEMPO DE GRAÇA!

 

Nesses dias 5 a 8 de julho, o povo das Comunidades Eclesiais de Base, pode trazer de sua Caminhada de encontros, a memória daquele que seria o último dos pequenos, com mais de 500 participantes, realizado nas terras sagradas de Canindé, aqui no Ceará, sob a consagração de São Francisco de Assis, “Das Chagas” como é venerado entre nós.

 

Naquele julho de 1983, o 5º Encontro Intereclesial, trazia um lema significativo: “CEBs, POVO UNIDO, SEMENTES DE UMA NOVA SOCIEDADE”, feito marchinha em tom menor, pelo querido Patrício, o sanfoneiro cego, do Maranhão. Era um tempo de escassez de chuva no nordeste e fartura de sonhos em tantos corações!

 

Desejo compartilhar, com quem chegue a ler esta mensagem, quatro notas de minha gostosa saudade, daquele que foi o meu primeiro grande momento, de cantar para tanta gente!

- O k-7, gravado ao vivo, com aquele grupo de tocadores e cantores, vindos desde Erechim-RS, na pessoa daquele gaitista (sanfoneiro pra nós de cá!), o Roque; acompanhando com gingado de vaneirão, o meu “Baião das Comunidades” ou “Somos gente nova, vivendo a união!”, como se conhece em muitos lugares. As vozes de Germano Maia, de Limoeiro do Norte-CE, no seu “Ninguém se engana, que a nossa história já começou desumana!”; do grupo sergipano, na paródia do “Bananeira chora”, “Vamos minha gente, vamos dar as mãos”; da Paraíba, o grito cantado, do Zé Rufino: “Nossos direitos vêm!”... Os pobres, nas comunidades, começando a anunciar, a Boa Notícia, rimando poesia e profecia!

- A imagem da presença amiga e acolhedora do anfitrião, o então arcebispo de Fortaleza, D. Aloísio Lorscheider, com seu sorriso humilde e sua firme posição de pastor, encorajando a Marcha das Comunidades para dentro e pra fora da Igreja, levando as sementes de um Projeto Novo para toda a Sociedade. Com ele, estavam outros bispos vindos de várias dioceses do Brasil. Foi marcante o gesto de D. Pedro Casaldáliga, pondo na cabeça da pequena estátua de São Francisco, da praça da cidade, um chapéu de palha, igual aos que usávamos naqueles dias! E o Santo, agora, um “Chiquinho”, lavrador e peregrino em comunidade com os pobres de agora. A gente Se emocionava em chegar pertinho de assessores já reconhecidos, como Leonardo Boff, Frei Betto, Oscar Beozzo, Pedro Ribeiro...

- As reflexões acaloradas, de militantes, mulheres e homens, trazendo experiências concretas, de quem começava a assumir como convicção da fé em Jesus Cristo, os mutirões nas roças e as farmacinhas comunitárias, as primeiras organizações de oposições as diretorias pelegas nos sindicatos de trabalhadores, os passos concretos para a participação política; tudo isso ainda sob ameaças de repressões da ditadura militar. A vibração dos cantos, da alegria, das danças animava os grupos e plenários!

- A Celebração da manhã e a Festa ao Luar! Foram inesquecíveis. Ao amanhecer de um dos dias, todos e todas, reunidos no pátio do Santuário de S. Francisco, em silêncio, contemplando o movimento de duas crianças, filhas de uma animadora, o menino ainda de peito, tentando recolher as sementes de milho espalhadas no chão e, espontaneamente, plantava-as numa bacia com terra. Foi um momento forte de contemplação e emoção. Onde andará, hoje, aquele menino-mensageiro com seus 20 anos? E as CEBs-sementes de Nova Sociedade?...

A noite, ao brilho da fogueira junina (sim, era clima de São João, o Batista, na região!) no terreiro e a luz da Lua cheia no céu, foi uma Festa só, feita de rodas de Ciranda e de Samba,um churrasco oferecido pela Paróquia de Canindé e um forró onde quase todos dançamos até de madrugada.

Já se foram vinte anos e nesses dias, desafiado pelo amigo Pedro Ribeiro, eu compus, não mais um baião, e sim, uma “Ciranda” para os(as) idosos(as) firmes na caminhada: “Se a perna cansa, é firme a esperança!”

Desejo de todo o coração, que as CEBs que estão em preparação para o 11o Intereclesial, em Minas Gerais, celebrem, essa memória, feita de sementes vivas, meninos, fogueira e muita arte. A terra é boa e o Espírito está aí, bem vivo, soprando e clamando. E essa chama ninguém pode apagar!

Fortaleza - CE, julho de 2003

Zé Vicente